Meu Rincão

Minha terra não é de todos;
Apenas de quem a ama!
Minha terra não tem tudo;
Apenas o essencial!
Minha terra não tem pressa;
Mas, às vezes, corre!
Minha terra não é grande;
Apenas suficiente!
Minha terra é rica:
Cultura, vanguarda, tradição...
Minha terra perfeita? É, não!
É quase humana, mãe!
É mutante:
Cinzenta , estorricada,
De repente, verde, encharcada!
É sensível, persistente, alegre...
Minha terra enche-me de saudade
Sua água revigora-me
É renovação!
São, do Sabugi,
João.

PR_SJS

sábado, 2 de maio de 2009

UMA FÉ INABALÁVEL

Há pouco mais de duzentos e trinta e três anos Portugal enfrentava seu momento de maior pavor e destruição causado por um grande terremoto que atingira a até então pacata cidade de Lisboa no primeiro dia de novembro de 1755 . Era feriado, dia de Todos os Santos. Lisboa preparava-se para manifestações de fé e festividades. Entretanto, nas primeiras horas da manhã daquele 1º de novembro o feriado religioso seria cenário de um atemorizante terremoto, seguido de grande incêndio e por fim, de um esmagador maremoto com a elevação das águas do rio Tejo em mais de oito metros do seu costumeiro nível. ============================================================ A tragédia parecia uma união de três forças juntando-se para atingir e destruir a cidade portuguesa. Era muita desgraça para tão pouco tempo: milhares de mortos – casas, igrejas, conventos e palácios destruídos – a fúria estava alocada em Portugal. ======================================== Muitas foram às interpretações a respeito de tal tragédia. Numa cidade impregnada de presságios, superstições e misticismo, grande parte do povo estava convicta de que tal tragédia fazia referência a uma espécie de acerto de contas do Todo Poderoso Deus. Os adeptos do sebastianismo (crença desenvolvida na época em que o então rei d. Sebastião desapareceu após dirigir-se para Batalha de Alcácer-Quibir em 1578, muitos aguardam sua volta triunfante como messias) não demoraram em relacionar tal episódio a suas esperanças sobrenaturais. ============================================================ Por outro lado, muitos defendiam que Lisboa fora vítima de uma fatalidade e que, na verdade, tal tragédia poderia ter ocorrido em qualquer região. E era esta a versão que a as pessoas próximas da Casa Real pretendiam passar. ============================================================ O fato é que independentemente das justificativas, o saldo desta catástrofe era desolador. Milhares de mortos (embora não existam registros confiáveis do número total de vítimas, alguns falam em, 10, 15 70, 90 ou até 100 mil, o próprio Marquês de Pombal preferiu divulgar um numero mais modesto, algo em entre sete a nove mil mortos), das vinte mil casas existentes na época, cerca de três mil sobreviveram aos estragos; palácios, hospitais, igrejas, nada escapou da terrível força destrutiva que atingiu Lisboa. ============================================================ Dentre as vítimas, a maioria dos fidalgos e praticamente toda Casa Real não sofreram qualquer dano, visto que não estavam presentes nos eventos comemorativos daquele dia de Todos os Santos. A nobreza tinha sim, o hábito de prestigiar tais eventos, porém marcava sua presença para depois das 11 horas da manhã, horário em que (naquela ocasião) já havia ocorrido toda desgraça. Dos fidalgos, cerca de oito perderam suas vidas no desastre de primeiro de novembro. Sendo assim, o povo foi quem mais sofreu baixas com o terremoto, visto que muitos estavam orando e assistindo missas espalhados pelas diversas igrejas e conventos de Lisboa. ============================================================ Dos sessenta e cinco conventos da cidade portuguesa, apenas onze permaneceram em pé (em condições precárias, é verdade). A Lisboa de novembro de 1755 era um cenário de desolação, destruição e inconformismo. Todos os hospitais foram destruídos, havia pedaços de corpos humanos espalhados por toda parte. ============================================================ Numa cidade em que a religiosidade tomava conta de grande parte da população, os milagres atribuídos ao episódio do terremoto não foram poucos: o padre Manoel Portal, sobrevivente no momento do desabamento de sua igreja, estava seguro de que havia previsto em sonho tido naquela noite (da qual se tornaria manhã de 1º de novembro), o fatídico acontecimento. Para ele, o sonho tornou-se realidade, ainda que desastrosa para os portugueses. A sobrevivência de uma jovenzinha aos braços de sua mãe morta e a preservação intacta de uma imagem de Nossa Senhora do Carmo num convento tomado pelo fogo acompanham os milagres que se apresentaram da tragédia. São relatos que reforçam a fé e o crédito na estreita relação estabelecida entre a catástrofe e o mundo divino. ============================================================ Histórias pessoais também passaram a contar com o “amparo da realidade” e ampliaram-se em forma e força de lendas. Uma dessas lendas fica por conta de um certo conde da Ribera que cortejava durante muitos anos uma donzela. Suas investidas eram correspondidas, entretanto, o pai da pretendida não demonstrava disposição em aceitar tal união, até que fora vencido ao perceber que o casal não desistiria de seu propósito amoroso. Logo depois de ouvirem as belas e esperadas palavras do sacerdote, os noivos foram surpreendidos ao ouvirem o terrível estrondo do primeiro abalo que atingira Lisboa. A partir daí tomaram a decisão de fugir do local refugiando-se numa embarcação na esperança de serem poupados do pior. Porém, as águas do rio Tejo, como informado anteriormente, sofreram grandes elevações e tragou muitas embarcações, inclusive a do casal recém casado. ============================================================ O terremoto que atingiu Lisboa em 1755 não fora o único de sua história, outros dois pelo menos ocorreram em 1531 e 1597 respectivamente. De qualquer forma, a magnitude presente no de 1755 é sem dúvida bem maior em comparação aos demais mencionados. A cidade portuguesa era uma das grandes capitais da Europa dos anos 1750, ultrapassada somente por Londres, Paris, Amsterdã e Nápoles. ============================================================ O poder da natureza dá lugar ao poder do homem O ano de 1756 significou profundas mudanças na política interna de Portugal, sob o reinado de d. José I, Sebastião de Carvalho, mais tarde marquês de Pombal (1769), tornou-se secretário de Estado dos Negócios do Reino de Portugal, cargo equivalente atualmente a de um primeiro ministro. Pombal foi presenteado com grande poder de decisões, com ele na liderança do secretariado dos negócios estrangeiros, Portugal registraria um longo período de extrema e rigorosa concentração de poder do Estado, afastando toda e qualquer tentativa dos nobres em manifestarem-se independentes da vontade do rei e do Estado (o marquês utilizou desse poder absoluto por 21 dos 27 anos de governo). ============================================================ Os jesuítas, constituintes da Companhia de Jesus também tiveram suas atividades destituídas. Para Pombal estas eram medidas inevitáveis para iniciar a reconstrução do país que ainda “sangrava as feridas” do terremoto. O marquês pretendia assim eliminar, o que pare ele eram os obstáculos mais poderosos para dar início a seus planos, tirando de cena os aristocratas e a poderosa ordem religiosa. A confiança oferecida pelo rei a Sebastião Carvalho, segundo alguns escritores, fica por conta da frase que ele, Pombal, teria dito em resposta a d. José I (ainda sob impacto da tragédia e confuso quanto ao que deveria ser feito para recomeçar e reconstruir Lisboa): “é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos”! ============================================================ Muitos dizem que depois da hecatombe de ordem natural (terrível terremoto de 1755) Portugal sofrera com o nascimento do poder de Pombal. Para o escritor Charles Boxer, “Pombal não admitia nenhuma tirania além da sua”. ======================================== Por Cristiano Catarin ======================================== Para saber mais: ======================================== SCHWARCZ, Lilia Moritz. (2002) A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis: do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil. Companhia das Letras, SP. ======================================== MAXWELL, Kenneth. (1998) O Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. Paz e Terra, RJ. ======================================== BOXER, Charles. (1969) A Idade de Ouro do Brasil. Nacional, SP.

domingo, 5 de abril de 2009

As linhas de Nazca, no Peru...

Espalhadas por uma superfície de cerca de 500 km² pelo deserto de Nazca, no sul do Peru, as linhas de Nazca são um conjunto de gigantescos geoglifos traçados no solo. Criados pelo povo nazca entre 300 a.C e 800 d.C, são pelo menos 70 desenhos de animais e plantas, como macacos, beija-flores ou lagartos, 800 linhas retas e 300 figuras geométricas.
Essas figuras foram descobertas em 1927 e, desde então, o fascínio por essas obras atrai turistas e pesquisadores de todo o mundo, fazendo da região o segundo ponto turístico do Peru, depois do eixo Cuzco-Machu Picchu. ============================================================== As figuras, que só podem ser vistas do alto, em voos de avião, revelam uma grande precisão geométrica que deixa perplexos os pesquisadores. Para realizar os traçados, as pedras escuras da superfície do deserto foram retiradas e empilhadas ao lado dos sulcos de cor mais clara, graças a um subsolo rico em gesso. ============================================================== Entre os mistérios que cercam essas figuras estão duas questões: como foram feitos estes desenhos geométricos, e para que foram feitos? Algumas teorias destacam que os desenhos possam representar um calendário astronômico, uma demonstração de arte e sabedoria, ou mesmo que eles foram feitos por extraterrestres, servindo como pista de aterrissagem para OVNIs. ============================================================== Arqueólogos que trabalham no centro cerimonial de Cahuachi, onde viveram os sacerdotes que ordenaram sua construção, afirmam que a função das linhas é de natureza cerimonial e buscavam fornecer um lugar de encontro para uma civilização que se estendia do deserto à cordilheira dos Andes e para a selva. ============================================================== Desenhos ============================================================== Entre os desenhos, que foram considerados patrimônio da humanidade pela Unesco em 1994, estão o macaco, uma figura de aproximadamente 135 metros que mostra o animal com apenas nove dedos e uma cauda em forma de espiral. ============================================================== Outra figura é uma aranha de mais de 40 metros de comprimento, que se localiza entre uma rede de linhas retas e é parte da borda de um enorme trapezoide. Também há um desenho que tem a forma de um humano, batizada de “Astronauta”. ============================================================== O colibri é outro dos geoglifos mais famosos. A distância entre os extremos de suas duas asas é de mais de 60 metros. Outra figura retrata uma ave de 300 metros de comprimento e cerca de 50 de largura com pescoço de cobra e um bico que aponta para o sol nascente. ============================================================== Além destas há figuras de orca, cão, 'homem-coruja', condor, lagarto, pelicano, mãos, flor, árvore, entre outros. ============================================================== 26/02 - 07:00 Carlos Ferreira

domingo, 29 de março de 2009

A Sociedade Patriarcal - III

Homem que se prezasse era bem-falante. A oratória compunha a personalidade masculina do mesmo modo que o fraque, o chapéu-coco, o cravo na lapela e o soberbo bigode - tudo isso acompanhado, naturalmente, de um título de doutor. ====================================================================== "Seu Doutor" integrava o restrito exercito de bacharéis formados pelas faculdades de Direito, Engenharia e Medicina. Todas elas, e não só as de Direito (como geralmente se supõe), são terreno assolado pela retórica, a arte de bem falar. Isto é fácil de entender, já que o persuadir, o convencer e o dissuadir representavam as chaves mestras da política, do mando, do governo, do controle. E eram os bacharéis que assumiam as posições de controle no, Estado, nos negócios e na família. ====================================================================== Com eles, a arte da retórica transbordou os paços acadêmicos e as assembléias políticas para invadir todos os recantos da sociedade. Um retrato irônico da oratória brasileira durante a Belle Époque foi feito pela revista Kósmos, em 1906: "Vede-o, austero, severo, sério, braço esticado no ardor do improviso, olhos cerrados pela contenção do espírito, afirmando a sua dedicação a um partido ao qual talvez tenha que trair amanhã, ou afirrnando o seu nobre desejo de morrer pela Pátria, quando talvez o seu único sincero desejo seja o de repetir a galantina de macuco que foi servida há pouco... A oratória política de sobremesa é hoje uma instituição indestrutível. É em banquetes que os presidentes eleitos apresentam a sua plataforma, é em banquetes que se fundam partidos, e é em banquetes que se fazem e desfazem ministérios. São banquetes fartos, magníficos, em que se gasta dinheiro a rodo: e isso não admira, porque neles é sempre o povo quem paga o pato... ou o peru. O champagne espuma nas taças. Os convivas, encasacados e graves, fingem prestar atenção ao programa político do orador, mas estão realmente namorando o prato de fios d'ovos... E o orador invoca os 'fundadores da nossa nacionalidade', os 'sagrados princípios de Oitenta e Nove', e declara solenemente que 'o Brasil (...) será em breve, graças a uma política enérgica, o primeiro país do mundo! porque ele, orador, está disposto a dar por isso a sua tranqüilidade, o seu saber, o seu estudo, a sua saúde, a sua vida!' E senta-se suado e comovido, dizendo ao vizinho da esquerda: 'Que tal? falei bem? passe-me aquele prato de marrons-glacés...' " ====================================================================== Existiam, no entanto, numerosos outros tipos de oradores, que sempre arrumavam um jeito de dar o seu toque pessoal às ocasiões que se apresentavam. ====================================================================== "Aqui vos apresento o orador dos grêmios literários e dos clubs (...). E moço, pálido, elegante e poeta. Manda versos aos jornais, e tem sempre cinco ou seis namoradas. E, de todos os sócios do club, o que mais docemente sabe falar ao coração das moças. (...) Tem um madrigal para cada menina; e recita versos (...) entre uma polca e uma valsa, encostado ao piano, com os olhos pregados no teto Ja sala e um sombrio desengano refletido na face. (...) A meia-noite, quando o presidente do club convida as senhoras para a 'modesta ceia' (...), retorcendo o curto bigode frisado, o orador tempera a garganta com um cálice do Porto, e enceta o seu infalível brinde à mulher-mãe, à mulher-esposa, à mulher-filha, essa trilogia divina que é a trípode do amor e o triângulo da Crença!' O brinde é sempre o mesmo, e nunca deixa de comover o auditório (... ). Há, porém, ainda o orador dos Grupos e dos Cordões, que é do mesmo gênero, mas de espécie diferente. Este é mais pernóstico, e mais art noveau, no trajar e no falar, como janota e como orador. ====================================================================== (...) E o orador das funçanatas alegres, em que o piano alterna com o violão e a polca militar com a modinha. É o Lúcifer das Eloás de cabelo frisado e flor atrás da orelha. É o Don Juan das Elviras de vestido de chita e óleo-oriza no cabelo... A sua imensa gravata de seda vermelha em laço de borboleta é todo um poema; a sua gaforinha lustrosa, dividida em 'pastas', é todo um programa. A bebida do orador político é o chanlpagne; a do orador dos clubs é o vinho do Porto; a deste é a cerveja. No fim da ceia, ei-lo que se levanta inspirado: fixa o punho esquerdo sobre a mesa, mete a mão direita no bolso da calça e solta o verbo. ====================================================================== (...) ====================================================================== "E admirai agora o 'orador dos aniversários', aquele que bebe à saúde do aniversariante e da sua digna família. E sempre um amigo íntimo da casa, um papa-jantares, um bom moço, que namora a filha mais velha ou ocupa o lugar de guarda-livros do pai. Tem doçuras de mel na palavra, e nunca se esquece de dizer que o momento é solene, que sua voz é débil, e que a dona da casa é um modelo de virtudes. E, assim que principia a ceia, ainda no meio da canja saborosa, já a dona da casa, que não prescinde de receber o título de 'modelo de virtudes', diz com amabilidade: 'Queremos ver hoje o seu brindis, seu Maneco!' E seu Maneco, obsequiador: 'De que ousadias. não serei eu capaz para cumprir suas ordens, excelentíssima?!. ====================================================================== Este texto foi extraído da Coleção Nosso Século, volume 1;

domingo, 22 de março de 2009

A Sociedade Patriarcal - II

E a família patriarcal era o mundo do homem por excelência. Crianças e mulheres não passavam de seres insignificantes e amedrontados, cuja maior aspiração eram as boas graças do patriarca. A situação de mando masculino era de tal natureza que os varões não reconheciam sequer a autoridade religiosa dos padres. Assistiam à missa, sem a menor manifestação daquela humildade cristã do crente (própria, aliás, das mulheres), assumindo sempre ares de proprietário da capela, protetor da religião, bom contribuinte da Igreja. Jamais um orgulhoso varão se dignaria de beijar as mãos de um clérigo, como o faziam sua esposa e filhas. Nesse universo masculino, os filhos mais velhos também desfrutavam imensos privilégios, especialmente em relação a seus irmãos. E os homens em geral dispunham de infinitas regalias, a começar pela dupla moral vigente, que lhes permitia aventuras com criadas e ex-escravas, desde que fosse guardada certa discrição, enquanto que às mulheres tudo era proibido, desde que não se destinasse à procriação. ======================================================================== Por mais enaltecido que fosse o papel de mãe, um obscuro destino esperava as mulheres. Uma senhora de elite, envolta numa aura de castidade e resignação, devia procriar e obedecer. Com os filhos mantinha poucos contatos, uma vez que os confiava aos cuidados de amas-de-leite, preceptoras e governantas. Sobravam-lhe as amenidades, as parcas leituras e a supervisão dos trabalhos domésticos. Até mesmo as linhas de parentesco, tão caras à sociedade patriarcal, só se tomavam "efetivas" quando provinham do homem. Desse modo, a mulher perdia a consangüinidade de sua própria família de origem, para adotar a do esposo. ======================================================================== "A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. (...) Multiplicai a família, e tereis a pátria". (Ruy Barbosa) ======================================================================== Até meados do século XIX, a casa-grande era o modelo perfeito do fechado mundo patriarcal. A reduzida elite das grandes cidades - comerciantes, profissionais liberais e altos funcionários públicos - transportava esse modelo para os austeros sobrados urbanos: a mulher restringia-se às quatro paredes de sua casa, supervisionando o trabalho doméstico dos escravos (que se alojavam no andar térreo), como a confecção de roupas e a destilação de vinho. ======================================================================== Nos primeiros anos da República, a família patriarcal começa a mostrar sinais de fraqueza. Não que ela fosse incompatível com o novo regime. São as cidades, as novas profissões, a luz elétrica, os bondes, os imigrantes, as lojas comerciais, as indústrias, que ameaçam o patriarca. ======================================================================== Antes, ele podia manter seu extenso clã no mais completo isolamento. Seus agregados, famílias inteiras submetidas a ele, podiam ser ricos ou pobres, não importava, pois eram todos igualmente da grande Família. Trabalhavam em suas terras e obedeciam. Pouco a pouco, o patriarca é obrigado a se relacionar com os outrora indesejáveis elementos "de fora". Os filhos serão matriculados na Faculdade de Direito. Um dia, toma-se mais conveniente que seu primogênito se case, não mais com aquela obscura priminha remediada, mas com a filha de um riquíssimo banqueiro da capital. Ele próprio é forçado a ampliar seus negócios nos centros urbanos, para que seu patrimônio não sucumba à nova maré do progresso. Ele irá aplicar dinheiro em outras atividades, além da fazenda. Chega também o momento de abandonar a casa-grande e se mudar para um palacete na Capital. Talvez seja possível levar junto um parente ou outro, mas o grosso dos leais agregados fica por lá mesmo. E se tornam os "primos pobres" do interior, que, com o tempo, serão cada vez mais pobres e menos primos. O império do patriarca se reduz. Ou, por outra, muda de natureza: agora ele é um industrial, um pioneiro no melhor estilo capitalista, um banqueiro, um grande negociante e também um fazendeiro. ======================================================================== "O mundo patriarcal se resumia na austera casa-grande, cercada de cafezais e terreiros, onde ecoavam as ordem dos capatazes e o burburinho dos escravos. Com os novos tempos, esse mundo irá se ampliar - e o patriarca se mudará com sua família para um palacete na Capital."

domingo, 15 de março de 2009

A Sociedade Patriarcal

SOCIEDADE PATRIARCAL ========================================================================= A família era tudo, nada menos. Seguindo a tradição da época em que os portugueses se instalaram no Brasil, a família não se compunha apenas de matido, mulher e filhos. Era um verdadeiro clã, induindo a esposa, eventuais (e disfarçadas) concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilhados, amigos, dependentes e ex-escravos. Uma imensa legião de agregados submetidos à autoridade indiscutível que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida, porque possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no coração e na mente de seus comandados, todas as virtudes e qualidades possíveis a um ser humano. ========================================================================= "Era o patriarca de um grupo de famílias. (...) Era o Pai, o Sogro, o Avô; mas, antes de tudo, o Amigo e o Conselheiro. Jamais alguém ousou desrespeitá-lo, no lar ou fora dele. (...) Encamava a sabedoria e ninguém dele se aproximava sem que, de imediato, se sentisse envolvido pela confiança que irradiava de sua marcante personalidade". (Aroldo de Azevedo, referindo-se ao fazendeiro Ignácio Cochrane.) E quem era esse patriarca orgulhoso, a quem se submetiam tudo e todos? Era o grande senhor rural, proprietário de terras incomensuráveis, onde se plantavam as bases da economia brasileira: café, cacau, cana-de-açúcar e outras grandes lavouras. Era ele que desde os tempos coloniais e imperiais presidia a única ordem perfeita e íntegra da sociedade brasileira: a organização familiar. ========================================================================= Não havia comunidades sólidas, sindicatos, clubes ou outros órgãos que congregassem pessoas de interesses similares. A família, a grande família patriarcal, ocupava todos esses espaços. E o que não fosse provido por ela representava um corpo estranho e indesejável. O próprio Estado, que enquanto ordem pública deveria estar acima das questões familiares, esbarrava nestas quando necessitava intervir. Mas os governantes sabiam que essa família exclusivista, dobrada sobre si mesma e solidamente organizada, era, por sua vez, o sustentáculo do Estado, pois impedia que a população, tão escassa e quase nômade, se pulverizasse neste imenso país. ========================================================================= A famflia patriarcal era, portanto, a espinha dorsal da sociedade e desempenhava os papéis de procriação, administração econômica e direção política. Na casa-grande, coração e cérebro das poderosas fazendas, nasciam os numerosos filhos e netos do patriarca, traçavam-se os destinos da fazenda e educavam-se os futuros dirigentes do país. Cada um com seu papel, todos se moviam segundo intensa cooperação. A unidade da família devia ser preservadá a todo custo, e, por isso, eram comuns os casamentos entre parentes. A fortuna do clã e suas propriedades se mantinham assim indivisíveis sob a chefia do patriarca. =========================================================================

domingo, 8 de março de 2009

EREM 2009

O EREM Mossoró oferecerá 3 tipos de pacotes para os seus participantes: o básico, com somente a programação do evento; um com programação e a alimentação e, finalmente, o completo, com programação, alimentação e o alojamento. Além do tipo de pacote, os preços vão variar também em decorrência do mês em que a inscrição for feita, sofrendo em abril um leve reajuste. Março Só programação: R$45,00 Programação + Alimentação: R$75,00 Programação + Alimentação + Alojamento: R$90,00 Abril Só programação: R$55,00 Programação + Alimentação: R$85,00 Programação + Alimentação + Alojamento: R$105,00

A PECUÁRIA NO BRASIL - III

O ELEMENTO SOCIAL =========================================================================== É importante lembrar que aqui surge a figura do vaqueiro, que se apresenta como um elemento a mais, na pouco complexa sociedade colonial. =========================================================================== Tratava-se de homens livres, não-proprietários de terras, que se encarregavam das boiadas, quase sempre pelo sistema de "partilha", recebendo certo número de reses, como pagamento pelo serviço prestado aos donos do rebanho - em geral o acordo era feito na base de um quarto do número total de cabeças, após cinco anos de serviço; eram ajudados por dez ou doze outros homens, conhecidos por "fábricas", que receiam um pequeno salário anual. =========================================================================== Esses homens, rudes e duros, muitas vezes escravos fugidos das fazendas do litoral, foram os verdadeiros conquistadores do sertão, abrindo caminhos, fundando povoações e ocupando áreas antes totalmente virgens da presença dos colonizadores. =========================================================================== " É preciso reconhecer, entretanto, que a penetração do gado e dos vaqueiros nos sertões do Nordeste nem sempre se verificou de maneira pacífica. Na Bahia, por exemplo, houve um enorme levante dos índios janduís e paiacus durante as últimas décadas do século XVII, obrigando o Governo-geral a solicitar a ajuda de bandeirantes vicentinos (os "sertanistas de contrato") afeitos desde há muito à guerra e à caça ao índio. Em socorro aos vaqueiros baianos vieram experimentados apresadores de indígenas, como Estêvão Parente, Domingos Barbosa, Brás Arzão, Domingos Jorge Velho, Cardoso de Almeida e outros, que foram empregados na repressão à chamada "Guerra dos Bárbaros" ou "Confederação dos Cariris". Muitos dos paulistas empregados nas guerras do norte não tornaram mais a São Paulo e preferiram a vida de grandes proprietários nas terras adquiridas por suas armas: de bandeirantes, isto é, despovoadores, passaram a conquistadores, formando estabelecimentos fixos. =========================================================================== A pecuária do nordeste, que em princípio destinava-se a desempenhar o papel de atividade complementar à economia açucareira, de setor fornecedor de alimento e força de tração aos engenhos, ganhou considerável impulso com a descoberta do ouro das Gerais, nos fins do século XVII.